O morto
Atravesso a rua e percebo uma aglomeração mais adiante, me aproximo e já ouço o murmurinho. Com dificuldade vou penetrando o muro humano e deparo-me com um corpo estirado na calçada. O corpo é de um jovem, que avalio ter seus vinte e poucos anos e um velho dirige-se a mim, sorri e pergunta “Foi atropelamento?”. O velho é desossado, me parece mais morto do que o próprio morto e a gorda esbaforida atrás de mim adianta-se, faz o sinal da cruz e lhe responde “Foi morte súbita”, mas há muito sangue espalhado pela calçada. A outra mulher, anoréxica, se destaca da multidão por estar aos prantos, gemendo palavras ininteligíveis e andando pra-lá-e-para-cá-pra-lá-e-para-cá, como se improvisasse ali uma espécie de dança do luto. Ouço a sirene, é a ambulância que chega veloz, logo estaciona e as pessoas abrem caminho para a passagem dos enfermeiros. O corpo é levado e como num passe de mágica as pessoas ali amontoadas se dispersam. Apenas sobram na rua eu e o velho desossado. Agora não vejo mais a mácula de sangue que antes havia no chão. “Deve ter vaporizado”, diz o velho, que ainda sorrindo fita meus olhos e pergunta “Foi atropelamento?”, mas seu olhar é distante, me atravessa como se eu não existisse, fazendo-me crer que sou de vidro; pega-me pelo braço e conduz-me até a papelaria, cuja entrada chama a atenção pelas letras extravagantes em néon. Dentro da papelaria há cadernos, lápis de cor, canetas, borrachas, bolas de futebol, cartões postais e a doida. A doida diz “Pois não” – carrega na mão uma faca sangrenta, que me parece descabida em uma papelaria. Minhas mãos suam frio. A doida conversa com o velho desossado e lamenta-se pelo acontecido, os dois falam quase ao mesmo tempo e de vez em quando se calam, causando breves instantes de silêncio, que por tamanha sincronia parecem combinados. A doida tem os olhos arregalados como os de uma coruja, vira-se para mim com sua faca sangrenta e pergunta “Foi atropelamento?”. Volto à calçada, conduzido pelo velho desossado. Como já se esperava, lá está novamente mais uma aglomeração e mais um corpo estirado no mesmo local do anterior, só que dessa vez todas as pessoas se desesperam, choram, gritam e daquela violenta confusão sonora apenas distingo por um instante a afirmação “Foi morte súbita”, mas o sangue reaparece junto com o corpo e um homem desatento pisa-o, espalhando-o e manchando seu tênis branco de marca. O velho, num movimento repentino, atira-se de trás de mim em direção à multidão, também chorando demasiadamente e logo se mistura a ela. Afasto-me dali, tomo um taxi e o automóvel acelera dobrando a esquina. De dentro do taxi ainda posso ouvir o barulho da sirene, mas não vejo a ambulância, já estou distante do local da previsível fatalidade. O taxista é cabeludo, barbudo, alcoólatra, obeso, quase não cabe em seu próprio taxi, balança a cabeça e diz “Que tristeza” – vira o rosto e pergunta “Foi atropelamento?”.
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